Duas fotos, duas realidades de dois países equidistantes. A primeira foto é do Sumbe, a capital da província do Cuanza Sul, em Angola, onde eu vivo, – dá para acreditar? -, um país prestes a completar 22 anos de paz. A segunda é o retrato de Allepo, uma cidade da Síria, um país duramente fustigado por uma das guerras mais atrozes e ignóbeis dos últimos anos.

Qual é a diferença entre as duas cidades/realidades/? Nenhuma!

Percebe-se claramente que ambas cidades pararam no tempo, expressam morte e deserto existencial, retratos escancarados de países governados por líderes inescrupulosos, corruptos, um bando de assassinos da fé e esperança de um povo, que não se coibem de roubar, matar e destruir quem quer que seja que se interponha em seus caminhos, desde que a todo custo se mantenham no poder!

No livro “O Discurso da Servidão Voluntária”, de Étienne de La Boétie, publicado originalmente após sua morte em 1563, texto foi elaborado depois da derrota do povo francês contra o exército e fiscais do rei, que estabeleceram um novo imposto sobre o sal; o autor apresenta a obra como uma espécie de hino à liberdade, com questionamentos sobre as causas da dominação de muitos por poucos, da indignação da opressão e das formas como vencê-las. Na obra, o autor pergunta-se sobre a possibilidade de cidades inteiras submeterem-se à vontade de um só. De onde um só tira o poder para controlar todos? Isso só poderia acontecer mediante uma espécie de servidão voluntária. Ele afirma então que são os próprios homens que se fazem dominar, pois caso quisessem sua liberdade de volta, precisariam apenas de se rebelar para consegui-la. Étienne afirma que é possível resistir à opressão, e ainda por cima sem recorrer à violência – segundo ele a tirania se destrói sozinha quando os indivíduos se recusam a consentir com sua própria escravidão. Como a autoridade constrói seu poder principalmente com a obediência consentida dos oprimidos, uma estratégia de resistência sem violência é possível, organizando coletivamente a recusa de obedecer ou colaborar.

Meu Deus, como é que o MPLA nos tem mantido tão escravos, inebriados, indolentes, em nossa própria terra ao longo desses mais de 45 anos de independência, colocando-nos nos índices mais baixos de todas as melhores estatísticas globais? A resposta é clara: nós, todos nós somos culpados posto que temos consentido com esse estado de miséria e de deploração de valores de justiça, bondade, verdade e bom siso!

Uma sociedade forte, viva e saudável é o resultado da soma dos valores e princípios que os membros daquela sociedade estão dispostos a lutar, viver e salvaguardar. Não haverá mudanças/transformação/desenvolvimento se não criarmos uma ética que se traduza no respeito à lei como garantia de expressão viva de inibição da tentativa tola de desrespeito e aceitação do outro como extensão viva e objectiva do que eu próprio sou.

É por isso que eu defendo a ideia de que está na hora de todos nós dizermos um basta! Está na hora de todos nós nos revoltarmos e não nos contentarmos com esse estado de coisas, precisamos provar para nós mesmos que podemos mudar e moldar o nosso próprio destino. Juntos somos mais fortes, juntos nós podemos. Chega de escravidão e de mortes!2022, é sim Ano da Alternância do Poder para a Governação Inclusiva e Participativa.

Sumbe, aos 28 de Janeiro de 2022.

Nelson Custódio

Secretário Provincial Adjunto e Governo Sombra da UNITA no Cuanza Sul.