Ontem foi a gota d’água de uma crise que começou em novembro do ano passado. De acordo com a ANGOP, a crise na Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) em Angola resulta de profundas divergências entre pastores e bispos angolanos e brasileiros sobre a gestão dessa instituição religiosa, com a ala angolana a queixar-se de humilhações, injustiças e discriminação. Entre os principais factores do conflito saltam à vista segundo o manifesto dos líderes da ala angolana, a exigência da prática da vasectomia aos pastores angolanos, abortos forçados, racismo, alienação de mais de metade do património da igreja, branqueamento de capitais, e evasão de divisas para o exterior do país. 

Aliado a isso, denunciaram a falsificação da acta de eleição de órgãos sociais da IURD, a emissão de procurações com plenos poderes a cidadãos brasileiros para exercer actos reservados à assembleia geral, proibição às mulheres de pastores angolanos de terem acesso à formação académico-científica e técnico-profissional, irregularidades no pagamento da segurança social e falta de projecto de desenvolvimento pastoral em formação teológica específica.  

A ala angolana afirma que a Igreja detém 270 templos a nível nacional, mas não possui qualquer infra-estrutura social, como escolas e hospitais, universidade ou posto médico; os valores monetários arrecadados nos cultos e em outras sessões espirituais não beneficiam em nada o povo angolano. De maneira sintetizada aqui estão elencados os problemas.

Supreendentemente com a complacência do Estado angolano, talvez seja o primeiro caso no mundo, a IURD passou a ser uma Igreja de direito angolano, ou seja, agora a Igreja é angolana, dependente de angolanos; os brasileiros vão depender dos angolanos ao contrário que vinha acontecendo até aqui. Na prática a Igreja é dos angolanos, foi “nacionalizada”, de acordo com o publicado no Diário da República, III Série n.º 81, de Sexta-feira 31 de Julho de 2020!

O que aconteceu? Onde foi que a IURD e o bispo Edir Macedo terão errado?  

A meu ver o bispo Edir Macedo cometeu várias gralhas em Angola. Aqui é África; a África possui uma cosmovisão conveniente do mundo e da vida, uma forma própria de enxergar a historia. É fácil lidar com os africanos e os seus governos, basta saber. Em cerca de 28 anos da IURD em Angola, o bispo Edir Macedo nunca veio à Angola, nunca se sentou com um Presidente angolano, nunca demonstrou publicamente respeito às nossas instituições e ao governo angolano, o MPLA.

A legitimidade para o exercício do poder em África não passa necessariamente pelo cumprimento das regras próprias da democracia, passa pelo respeito às autoridades, inclusive as tradicionais. Você pode ser líder do que quer que seja, mas se os “mais velhos” não te aceitarem, você simplesmente não lidera, não governa. Faltou, portanto, o Edir Macedo conquistar os angolanos, isto é, vir à Angola, andar pelo país, dançar, abraçar os angolanos, firmar um “pacto” com o governo, sobretudo no sector social, assim como os últimos Papas o fizeram. A Igreja Católica tem legitimidade em Angola, primeiro por circunstancias históricas, segundo porque os líderes angolanos já visitaram o Vaticano vários Papas também já visitaram Angola.

Os líderes angolanos se denominam católicos, mas todos nós sabemos que são majoritariamente ateus, secularistas, filhos do materialismo dialético de Marx; aqui, a Igreja é sempre considerada parceira do Estado; nas entrelinhas, é um meio que deve necessariamente estar ao serviço do único intelectual colectivo, o partido/Estado. Não se trata, portanto, necessariamente de ser reconhecido pelo ordenamento jurídico ou não,  trata-se de saber “jogar” à moda do regime; a lógica é simples: você fala bem do Estado e o Estado de dá guarida, ainda que você seja líder de uma Igreja cujos sermões sejam cheios de absurdos do ponto de vista bíblico/teológico. Edir Macedo não soube “comprar/adquirir” legitimidade perante o Estado angolano. É um estranho à nós. Não nos conhece e nem nós o conhecemos.

As imagens que correram pela internet dando conta de sermões em que Edir Macedo vociferava maldições aos líderes da sua Igreja em Angola e ao Estado angolano, simplesmente não caíram bem para a consciência colectiva nacional. Nós somos africanos, cremos em maldições e feitiçarias, ver um líder a praguejar é algo que nos assusta. A África é assim!

A TV Record Angola, por sua vez, não fez um bom papel, muito pelo contrário, notou-se uma campanha pública contra a parte angolana, com contornos político-diplomáticos de dimensão nacional e internacional envolvendo até mesmo o Presidente do Brasil; ao que parece, as autoridades angolanas não se deixaram influenciar, afinal tem interesses a serem acautelados.

Os pastores e bispos angolanos foram muito inteligentes, souberam fazer uma leitura objectiva da realidade e usaram as justificativas que apresentaram (penso que as denúncias apresentadas são sérias e carecem de uma profunda resposta das autoridades), a seu favor, mas precisavam do Estado/MPLA. Sabiam que o Estado estaria a seu favor, na medida em que, daqui para frente eles vão alinhar com o sistema, ou seja, vão apoiar irrestritamente o MPLA/Executivo. Quem sai a ganhar? A médio prazo os líderes da Igreja em Angola, penso. Mas, a longo prazo o MPLA que daqui para frente, assim como faz com os líderes de outras Igrejas de grande dimensão, estará no controle, afinal são 500.000 fieis cujos votos farão a diferença em 2022.

Eu não tenho problema nenhum em encarar essas mudanças na IURD ou em outras Igrejas. O Espírito Santo de Deus é como vento, sopra na Igreja como quer e quando quer. Ao longo desses quase dois mil anos de cristianismo, a Igreja nunca teve uma característica única, sempre foi dinâmica aliada às transformações da historia. Alguém pode vaticinar o que acontecerá à IURD no Brasil e no mundo após a morte do seu líder e fundador?

Diante desses factos, só me resta escalar a montanha e do alto dela altissonantemente bradar aos céus: venha logo o teu reino, oh Senhor Jesus Cristo!

Sumbe, 01/08/2020

Nelson Custódio

Advogado, Político, Pastor e Activista dos Direitos Humanos.