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É deveras impressionante como nós temos “cérebro de feijão”, só pode. O Primeiro-ministro português, António Costa, desembarcou nesta segunda-feira trazendo na  bagagem, segundo o Jornal de Angola, a proposta de assinar um programa estratégico de cooperação, acordos em matéria econômica, que vão criar melhores condições para o reforço das relações bilaterais entre empresas dos dois países; um acordo que vai evitar a dupla tributação de empresas dos dois países, etc.

Destarte, chamou-me a atenção o destaque que algumas pessoas, alguma imprensa,  sobretudo aqui na “fazenda”, deram em relação à forma descontraída, casual e informal como o chefe de governo português desembarcou em Luanda.

Segundo O Público, o primeiro-ministro não estava à espera que o Estado angolano lhe fizesse uma tão solene recepção no aeroporto, que incluiu alas militares. A surpresa apanhou António Costa vestido informalmente, de calças de ganga, sem gravata e de mocassins, lado a lado com o ministro angolano das Relações Exteriores, formalmente vestido.

E qual é o problema? A me ver o problema não foi, seguramente, de António Costa e nem do chefe da diplomacia lusitana; cogito que o problema foi do lado de cá do Atlântico, ou no mínimo falha das duas chancelarias que não combinaram os detalhes, até porque o programa oficial começaria às 10 horas com a visita ao museu das forças armadas.

Nós, angolanos, valorizamos a aparência ao  invés da simplicidade, temos pouco compromisso com a humildade, transparência, abertura; preferimos a falsidade ao contrário da autenticidade. Nos tornamos mesquinhos, gente seu áurea nem brio. A cor e a marca da gravata, os diamantes no relógio e a marca do sapato, para nós,  dizem quem somos. O título de doutor (como os angolanos gostam de ser chamados de doutores, meu Deus!), que carregamos por causa dos diplomas  de licenciados já é sinônimo de sermos chefes, directores, etc., mesmo quando muitos têm diplomas, mas nem sequer sabem falar ou escrever direito a língua de Camões; não têm visão de Mundo!

As críticas à António Costa,  revelam o nosso lado vazio e narcísico; achamos que os outros devem ser como nós; achamos que devem ser e estar do jeito que achamos que devem ser e estar (pura presunção). Temos dificuldades de aceitar o outro sem tentarmos mudá-lo à nossa conformidade. Nos super estimamos, tolamente, demais!

É isso que tem acabado com o nosso país ao longo desses mais de 40 anos. Vendemos uma imagem para o mundo que não somos. Vestimos fatos e gravatas que nem mesmo um ocidental comum veste. Compramos os carros que eles não usam, porque lá a sociedade foi moldada sobre o prisma da alteridade, o ter não é ser, o aparecer não quer  dizer nada, são valores que desconhecemos!img_796x493$2018_09_17_15_43_44_339311

Em Angola, criamos a cultura da visualidade, das imagens, cultuamos estereótipos, aparências, belezas engessadas, corpos moldados, consumimos padrões instituídos e lançados pela mídia, sobretudo a hollywoodiana,  vivemos como diz o sociólogo Zygmunt Bauman numa modernidade líquida.

Facilmente valorizamos a aparência sobre a essência das coisas, em quase tudo. O que vale, para nós é construirmos uma imagem e tentarmos sustentá-la. Coitados de nós,  o mundo nos ri à beça. Somos um bando de hipócritas!

Nosso país não é sustentável em coisas básicas como arroz, peixe, feijão, ou milho; o nosso povo passa fome, e nos rimos dos chineses que na simplicidade fazem isso no nosso país.

Não conseguimos gerir sequer pequenas cantinas; as mini-lojas, estão todas nas mãos dos “mamadus”, no entanto achamos que somos os mais inteligentes do mundo e temos coragem de criticar um homem que quando vai à Assembleia da República do seu país, dá golos de sabedoria e inteligência.

António Costa já tirou Portugal de uma das maiores crises e recessão da sua história e vai ampliar a linha de crédito para as empresas portuguesas que quiserem investir em Angola de 1 mil milhão para um 1,5 mil milhões de euros, e nós o criticamos por desembarcar à paisana.

Fico imaginando, em 2012 o jornal o público estampou a seguinte matéria: A chanceler alemã usou o mesmo modelo que tinha exibido em 2008 no festival de música que marca o início do seu descanso. O jornal frisou que sabe-se que Angela Merkel varia pouco de vestuário. Usa o mesmo gênero de roupa ao longo do ano – o casaco de corte direito de vários tons, combinado com caças ou saia da mesma cor. E varia pouco de costumes – começa sempre as suas férias no festival Richard Wagner. Ontem, para não variar, escutou durante duas horas e meia a sua música favorita. E repetiu o modelo de vestido clássico que usou no mesmo evento em 2008: um vestido cinza-azulado, decotado. Em tempo de crise, finalizou o jornal, a chanceler alemã dá o exemplo. Apenas mudou a carteira e a aparência: parece mais cansada e mais magra, que os tempos têm sido de amarguras.

Angela Merkel é chefe de governo da terceira maior economia do mundo, no entanto é simples, responsável, não usa joias caras porque sabe ser e estar, tem valor. Não deixou de ser que é por repetir o mesmo vestido. Até a Isabel dos Santos, que é a mulher mais rica da África, não usa joias, tem essência, não vive de aparência, várias vezes já postou fotos em suas redes sociais dentro de um avião em classe econômica, isso não a diminuiu. Quem é simplesmente é, não precisa provar nada à ninguém, não precisa se amoldar às conveniências sociais, não vive de imagens.

Então porquê nós somos assim? De um lado a culpa é mesmo dos portugueses. Sim, os portugueses nos estragaram quando trouxeram para África sua cultura, seus costumes em detrimento dos nossos. Nos aniquilaram fazendo com que nosso orgulho africano fosse esquecido.  Hoje somos um povo apenas heroico e generoso, mas sem identidade, temos crise de valores. Do outro lado a culpa é nossa, porque não gostamos de aprender da forma correcta. Quando vamos às europas e às américas, só aprendemos as suas futilidades, que pena. Esquecemos de aprender sobre ética, valor, tolerância e outros saberes, que pena. Temos que recuperar o tempo perdido.

Enquanto escrevo, me lembro da entrega das credenciais do novo Embaixador de Angola  no Reino Unido, Rui Mangueira, à Rainha Isabel Segunda; Rui usava um traje que mais parecia um “pinguim” do que africano, andou até de charrete, típico de um lord inglês; é africano que se ocidentalizou, assim como todos nós.

É por isso que eu vejo muitos no sol de verão do nosso país, em que a temperatura vai acima dos 40 graus, andando à pé, mas usando fato e gravata. Alguns quase se sufocam de tanto calor. Não precisamos ser assim, temos que mudar! A vida é muito mais simples do que parece, a felicidade reside na simplicidade, no encontro dos indivíduos consigo mesmos!

Ora, eram 7 horas da manhã, António Costa viajou a noite toda, viagem exausta, de avião comercial ao que parece, despiu-se das pompas do terno e gravata, veio aberto disposto a dar outra guinada nas relações entre os dois países e muitos só viram as suas calças jeans. É inaceitável que sejamos tão mesquinhos, o mundo deve ficar assustado!

Alguns chegaram às raias de dizer que tinham imensas dúvidas que se ele visitasse outro país europeu ou americano, desembarcaria do mesmo jeito. E daí? Isso por acaso nos diminui? Deixamos de ser o que somos por causa disso? É desrespeito? Claro que não! Só se for na cabeça de muitos com cérebros de feijão…

Se continuarmos assim, como disse Mia Couto, continuaremos a ser ricos pobres…

Nelson Custódio.

Advogado, Teólogo e Pastor da Igreja Comunidade da Família