Igreja Católica, cartão postal a Cidade do Sumbe
Igreja Católica, cartão postal a Cidade do Sumbe

É de manhã, são 6 horas, já me encontro em pé, a ideia de acordar um pouco cedo tem a ver com o facto de que, por hoje ser tolerância de ponto, entendo que devo aproveitar ao máximo o meu dia. Entretanto, não pude parar e reflectir um pouco – apesar de não ter muito tempo, sobre um facto de extrema importância: o Sumbe, capital da província do Cuanza Sul, faz hoje 62 anos. Aleluias, glorias à Deus, estamos todos de parabéns! São 62 anos de existência desde que, a 28 de Maio de 1956, pelo diploma legislativo número 2.757, foi elevada à categoria de cidade.

De acordo com dados históricos sobre a cidade do Sumbe, a 7 de Janeiro 1769, o capitão-mor da Muxima, José Rodrigues, sob mando do então governador Inocêncio de Sousa Coutinho, a oficializou com a obrigação de aí instalar um presídio com o nome de Novo Redondo. A vila foi, pela primeira vez, visitada pelo Chefe de Estado português da altura, general Francisco Higino Craveiro Lopes, em 27 de Junho de 1954, e pelo decreto número 40.225 de 20 de Julho de 1955 é elevada à capital do distrito.[1]

Porém, como supra frisamos, apenas a 28 de Maio de 1956, pelo diploma legislativo número 2757, é elevada à categoria de cidade. O então Novo Redondo, hoje Sumbe, foi motivado da necessidade de defesa contra as incursões dos piratas ingleses e franceses e na ligação entre os reinos de Luanda e de Benguela, bem como das minas de cobre.[2]

A fundação iniciou-se em 1768 quando o governador Inocêncio de Sousa Coutinho ordenou a uma brigada de engenheiros para fazer a escolha do local onde se instalaria o então Novo Redondo. Para a instalação do presídio embarcaram 100 homens com dois canhões sob comando dos capitães Joaquim Monteiro de Morais e António José da Costa, enquanto a primeira igreja foi edificada em 1811.[3]

Destarte, lamentamos o facto de que dispomos de poucas fontes de pesquisas que, de certo, contribuiriam para o acúmulo de conhecimentos, sobretudo para a nova geração, da história do nosso município em primeiro lugar, da província em segundo plano e à posteriori do nosso país.

Sem querermos ser prepotentes, acreditamos que, talvez, pela importância histórica que essa parcela do território angolano detém no aspecto relacionado à sempre mais premente necessidade de compreensão mais holística da história geral da África, sobretudo nos períodos do Séc. XVI ao XX, esta Cidade já deveria ser elevada à categoria de patrimônio histórico da humanidade, pela UNESCO, à semelhança de outras do nosso país, como por exemplo o Mbanza Congo. Entretanto, o Sumbe nada cresceu, excepto no número de população. Hoje é uma cidade sem estrutura integrada. A poeira, a poluição visual, os buracos, os entupimentos das valas de drenagem na cidade são claramente visíveis.

Hoje, torna-se por demais evidente que a herança africana marcou, em maior ou menor grau, dependendo do lugar, os modos de sentir, pensar, sonhar e agir de certas nações do hemisfério ocidental. A gênese dos nossos problemas podem ser vertiginosamente visíveis a partir de uma revisitação às nossas próprias raízes históricas. Nós os africanos temos o vício de nos vendermos facilmente. Somos herdeiros dessa herança maldita. É por isso que nossos melhores “cérebros” estão no ocidente.

Não podemos, pois, nos esquecer de que somos resquícios ainda de uma geração afectada subconscientemente pelas heranças do nosso passado, passado não só em relação ao período de guerra antes e pós independência, – o que não é suficiente para compreendermos os nossos problemas -, mas de um período ainda mais remoto, antes das lutas de libertação ou mesmo do pan-africanismo. Carregamos dentro de nós estigmas da escravidão!

Cidade do Sumbe, Zona 1
Cidade do Sumbe, Zona 1

Entrementes, pensamos que é preciso recuarmos mais no tempo para nos compreendermos! Como se sabe, o comércio de escravos, também chamado de tráfico negreiro, ocorreu em toda costa do Oceano Atlântico entre os Séculos XVI e XIX. A grande maioria dos escravizados que eram levados para o Novo Mundo pela rota de Comércio Triangular, eram membros de povos da África Ocidental, oriundos da parte central e ocidental do continente, vendidos por outros africanos ocidentais para os comerciantes de escravos da Europa Ocidental ou capturados directamente pelos europeus.[4] Um olhar mais amplo em africanos mortos directamente atribuíveis à instituição da escravidão entre 1500 e 1900 sugere até quatro milhões de mortes de africanos.[5] Por duzentos anos, 1440-1640, traficantes de escravos portugueses tiveram um quase monopólio sobre a exportação de escravos da África. Durante o século XVIII, quando o tráfico de escravos transportou cerca de 6 milhões de africanos, os traficantes britânicos carregaram quase 2,5 milhões.[6] Estima-se que dos escravos africanos (1519–1867), a América portuguesa tenha sido beneficiada com cerca de 38,5% do número total de escravos.[7]

Neste sentido, segundo se sabe a etimologia da palavra “Sumbe”, é uma palavra de origem kimbundo, “kusumba”, de significado comercial, prática que se fez corrente entre os autóctones e os negociantes portugueses e ingleses no litoral do Cuanza Sul, na chegada destes últimos, que equivale a comprar/vender. Assim, em função do tráfico negreiro, não seria forçoso concluir que esse mercado passou a ter uma conotação mais intimamente ligada ao tráfico de escravos. Daí que, vemos no nosso município, a fortaleza do Quicombo, onde segundo dados, apesar de servir para proteção contra os invasores piratas britânicos e outros, consta que tenha sido aí um dos lugares onde nossos irmãos embarcavam para serem transportados para às Américas.

O tempo passou, a independência chegou em 1975; a República, embora que popular foi fundada, nesse período, passamos de Novo Redondo para Sumbe; mas o que, de facto, mudou de lá para cá?

Na nossa avaliação, absolutamente nada! – eu me explico. Ora, se levarmos em consideração o facto de que a evolução do que hoje conhecemos como Sumbe, deu-se a partir de 1785 com a construção da primeira fortaleza de pedra, e que os primeiros serviços de saúde teriam sido constituídos em 1872, pelo médico Francisco Joaquim Vieira, e que o Sumbe, terá sido a primeira cidade angolana a ter iluminação domiciliária fornecida a partir da barragem hidroelétrica do rio Cambongo, então não seria forçoso concluir que não crescemos nada porque serviços como energia elétrica, apesar das melhorias, não é produzido localmente como antigamente em que tínhamos a barragem da “Sassa”. Por outro lado os serviços de saúde hoje em dia não são referência nem para o país, muito menos para quem cá vive. As pessoas, por exemplo, realizam hemodiálise e tratamentos oftalmológicos na província de Benguela. Não temos um sector técnico universitário à altura de outras paragens do pais, e se a educação universitária sobretudo, a saúde e infraestruturas integradas não são referências e nem adequadas, só podemos concluir que nada mudou!

Talvez, a mudança mais significativa redunda no facto, – e esta talvez seja mesmo a grande diferença -, de que não somos mais comercializados pelos mercadores de forma aberta para o “colono branco” que nos levavam sobre fortes ferrolhos e grilhões às américas.

Mas, não nos assombremos porque continuamos a insistir na ideia de que nada mudou; nada mudou porque não desenvolvemos, não crescemos, ficamos ainda mais atrás quando comparamos a nossa cidade às outras. A economia de mercado não chegou à estas paragens. Não temos um cinema, um shopping, uma loja de grife, etc. Quando queremos ir ao cinema 2D ou 3D, ou ainda com tecnologia IMAX, temos que nos deslocar mesmo à Luanda. Quando queremos nos tornar médicos, engenheiros, especialistas técnicos nalguma área do conhecimento, temos que nos deslocar à Luanda ou à outras capitais de províncias mais desenvolvidas. É proibido investir no Sumbe?! Não temos empresas competitivas no mercado nacional, que geram empregos que tenham impacto directo na vida das famílias, gerando renda e riqueza. As fábricas de cimento e de gesso embora sejam excepção, andam aos soluços. Tudo por aqui passa, mas nada por aqui fica! Quando vamos à Luanda, olham para nós e nos dizem que estamos a vir do mato, – puro preconceito, é claro, mas com um fundo de verdade, sejamos honestos!

Ora, o que de facto então se passa conosco? Não gostamos e não merecemos também coisas boas? Porquê somos um povo apático, amorfo, sem ideal de mudança, pouco exigente? Porquê somos um povo cujo espírito revela uma certa passividade em relação à consciência e a maturidade face aos desafios da vida e nos deleitamos em aceitar tudo como se fosse normal, quando é por demais evidente que a realidade à nossa frente nos mostra que a forma como sobrevivemos não é normal?

Com efeito, especialistas definem que não existe fórmula para o sucesso, para o desenvolvimento, mas todos os especialistas concordam em um ponto: nossa mentalidade é uma das peças chaves para atingir nossos sonhos, nossos objectivos tanto na perspectiva individual quanto na perspectiva colectiva. Cremos que só existe desenvolvimento colectivo quando há desenvolvimento individual, são duas lógicas que se entrelaçam, como dedo e unha, uma ligada à outra. Assim, o subdesenvolvimento, a recessão que há mais de 15 anos desgraça a nossa cidade é fruto também de descrédito que abundantemente habita no inconsciente de cada um de nós. Somos os únicos responsáveis pela forma como vivemos.

Existe uma frase famosa que diz: “nós somos o que nós comemos”. Essa frase faz sim muito sentido. Mas, gostaríamos de dizer que nós também somos aquilo que mentalizamos. Portanto, podemos resumir em: “nós somos o que pensamos”. A forma como nos vemos se reflecte substancialmente na realidade colectiva. Por isso, se quisermos que o Sumbe seja reconhecido, e que seja o nosso orgulho de cada dia, na nossa perspectiva isso passa necessariamente pela mudança da nossa mentalidade:“metanoia” (do grego antigo μετανοεῖν), que traduzido para o português significa mudança de pensamento, de intelecto.

Precisamos, portanto, mudar o nosso modo de viver, isto é, de nos vermos a nós mesmos, imprimir outra cultura! Precisamos de mais cidadania responsável; precisamos ser mais responsáveis uns pelos outros, cuidar de nós; precisamos cuidar uns dos outros na certeza de que quando a nossa cidade estiver bem, todos nós estaremos bem.

Perece que às vezes temos a percepção de que ainda estamos entre os Séc. XVI à XVIII, distendidos no “mercado de escravos” à espera do “colono branco”, de preferência o inglês, para sermos comprados e rumarmos à Europa.

Não! Não somos mais escravos, nem de colonos brancos, nem de compatriotas nossos que sob a alçada de exercerem uma função dentro da estrutura hierárquica do poder tradicional, faziam acordos de leniência com o “homem branco” para venderem os seus irmãos por um prato de lentilhas e nem tampouco somos escravos de outros compatriotas nossos que sob a égide de uma bandeira de um ideal cujo principal espectro fora baseado na liberdade, “liberdade” essa que nunca foi experimentada e que produziu no final das contas mais escravos hoje no Séc. XXI, para vergonha nossa, tanto quanto mais escravos iguais aos que ao longo dos Séculos XVI  à XVIII foram levados ao Velho e ao Novo Mundo.  Parece que os tempos não mudaram!

Contudo a metanoia começa exactamente pela percepção clara de que vivemos noutro “mundo”, são tempos diferentes. Nossos irmãos que foram para o Novo e Velho Mundo, não viverem na era dos direitos, não sabiam o que eram direitos fundamentais, não exerciam direitos políticos, não eram cidadãos, eram coisas (escravos), tinham preço; então porquê cargas d’águas continuamos a nos comportar como se estivéssemos ainda no Séc. XVI, XVII ou XVIII? Somos por acaso ainda escravos?

Ora, precisamos saborear o doce e bom favo da liberdade em detrimento do amargo “dom” da escravidão. Somos escravos mentalmente ainda. Não acreditamos no nosso potencial. A escravidão reside dentro de nós, somos prisioneiros das nossas próprias consciências. Somos escravos ideológicos (liberdade da catana e do martelo). Venderam para nós uma utopia, que hoje se traduz na nossa maior escravidão – uma farsa total, um sonho de liberdade cujos seus artífices nunca a experimentaram; ora, só seres verdadeiramente livres podem gerar seres verdadeiramente livres. O nosso sonho de liberdade falhou, justamente porque preferimos viver no autoengano, na mentira em detrimento dos valores da verdade, da liberdade, da justiça social e da equidade.

É por essa razão que o Sumbe não cresceu e não se desenvolveu; não vai crescer e se desenvolver enquanto persistirem, entre nós, gente escrava a tentar nos libertar da nossa própria escravidão num mercado de escravos!

Temos o direito, o dever moral de romper e irromper com esse ciclo vicioso que escraviza a alma e subalterniza o nosso espírito. Um abismo chama outro abismo! Está na hora de começarmos a viver como campeões e acreditarmos em nós mesmos. Está na hora de provar para nós mesmos que somos inteiramente capazes de fazer mais e melhor em relação àquilo que o “colono branco” deixou e fez. Não podemos cometer os mesmos erros!

Temos o dever moral de sonhar e pagarmos o preço para que vivamos de modo digno; isso é sinônimo de paz. Uma cidade só tem paz, quando gera emprego; emprego gera crescimento renda às famílias e estas alimentam as empresas que tem a responsabilidade de produzirem bens e serviços. Temos que criar demanda. Precisamos nos abrir para novas experiências, construir o futuro no momento presente, confiar em nossas habilidades, assumir responsabilidades. Precisamos de consideração positiva uns aos outros de modo incondicional. Por conseguinte, não podemos aceitar andar aos passos de camaleão quando mesmo tendo pés como os da corça nos lugares altos somos impossibilitados todos dias de pular mais alto.

Actualmente as obras de requalificação das infraestruturas integradas da cidade do Sumbe estão paradas. Já tivemos em visita à nossa cidade várias comissões interministeriais e até agora, nada! A resposta é que há crise. Contudo, pensamos que independentemente disso, temos de ser exigentes e requerer por parte de quem de direito o melhoramento do sistema de fornecimento de água, pavimentação das ruas, macro drenagem das águas residuais, iluminação pública adequada, além de saneamento básico que proporcione vida digna aos munícipes, entre outros. Temos o direitos que querer que os próximos 10 anos sejam melhores que estes 62 anos. Nós podemos!

A mudança de mentalidade é a chave de que precisamos para mudarmos de vida! Essa é a fórmula do sucesso, do desenvolvimento que queremos. Metanoia é a peça fundamental para construção e materialização do projecto “Sumbe meu orgulho”!

Parabéns Sumbe pelos 62 anos de existência!

Por: Pr. Dr. Nelson Custódio.

(Advogado, Pastor, Docente Universitário, Mestre e Doutorando em Direito, especialista em Direito Público e em Direito Constitucional).

Sumbe, 28/05/2018.

[1] – Cidade do Sumbe completa hoje 57 anos. [Em linha]. [Consult. 28 de Maio. 2018]. Disponível em http://www.angop.ao/angola/pt_pt/noticias/sociedade/2013/4/22/Cidade-Sumbe-completa-hoje-anos,f5cba4cb-8a0c-4698-9c4f-774cd948dbea.html

[2] Idem – Ibidem

[3] Idem – Ibidem

[4] -Comércio atlântico de escravos. [Em linha]. [Consult. 28 de Maio. 2018]. Disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Com%C3%A9rcio_atl%C3%A2ntico_de_escravos

[5] Rosenbaum, Alan S., and Israel W. Charny, Is the Holocaust Unique?, 2001, pp. 98–99.

[6] About.com: O comércio de escravos transatlânticos.

[7] Idem-Ibidem.